BiblioBeiriz

Serviços de Biblioteca – Agrupamento de Escolas Campo Aberto – Escola E.B. 2/3 de Beiriz

“Vejam bem”

Posted by bibliobeiriz em Abril 13, 2010

25 poemas e canções para o 25 de Abril

Vejam bem
que não há só gaivotas em terra
quando um homem se põe a pensar
quando um homem se põe a pensar

Quem lá vem
dorme à noite ao relento na areia
dorme à noite ao relento no mar
dorme à noite ao relento no mar

E se houver
uma praça de gente madura
e uma estátua
e uma estátua de de febre a arder

Anda alguém
pela noite de breu à procura
e não há quem lhe queira valer
e não há quem lhe queira valer

Vejam bem
daquele homem a fraca figura
desbravando os caminhos do pão
desbravando os caminhos do pão

E se houver
uma praça de gente madura
ninguém vai
ninguém vai levantá-lo do chão
Zeca Afonso in Cantares de Andarilho  (1968)

Fonte da letra

Versos dos Versos- O que está por detrás dos versos: «VEJAM BEM-
“Música do filme ‘O Anúncio’, a apresentar no Festival de Cinema Amador pelo Cineclube da Beira. O filme foi projectado em sessão privada, ainda incompleto e sem diálogos. Um homem procura emprego num escritório, dirige-­se ao gerente de uma firma conceituada, a capatazes e mestres-­de-obra. Em vão! Privado de fundos, vê-se obrigado a dormir ao relento e a roubar para comer. Na retrete de um restaurante, único lugar onde não é visto, devora apressadamente dois ovos que metera ao bolso, aproveitando-se da algazarra geral. É à luz deste contexto dramático que poderão entender-se a linha melódica e o texto rimado apensos às sequências julgadas mais expressivas.” José Afonso

“(…) o motivo de ‘dormir ao relento’ é usado frequentemente nos textos de José Afonso, o que este texto vem ilustrar. Mas fazem-se outras referências à vida de quem se opõe ao regime e à PIDE:

“Gaivotas em terra” é uma expressão utilizada para anunciar uma tempestade e, em sentido mais figurado, para anunciar uma catástrofe ou um periodo conturbado. José Afonso quer advertir o ouvinte de que o pensamento em si é somente o primeiro passo para a mudança. Se algumas pessoas dizem que a revolução não se faz com canções, o mesmo se pode dizer do pensamento, embora este seja a base em que ela assenta.

A “estátua” já é uma referência mais directa e concreta à PIDE. Trata-se de uma técnica de tortura que se aplicava para extrair confissões. O detido tinha de ficar de pé por horas seguidas, sem que se pudesse apoiar. Se adormecia, era logo acordado com um sons agudos e súbitos. Outra referência a esta técnica faz-se no texto “Por trás daquela janela”.

Além de “dormir ao relento”, a vida isolada do oposicionista exprime-se através da imagem do homem que é torturado à vista de outras pessoas, sem que ninguém o venha ajudar. A sua actividade clandestina define-se como a luta por uma melhor distribuição dos bens (“caminhos do pão”). Por muito fraco que seja o sistema autoritário (“a fraca figura”), tem de lutar sozinho, pois não encontra com quem lutar.
in “A canção de intervenção portuguesa – Contribuição para um estudo e tradução de textos” de Oona Soenario, 1994-1995, Universidade de Antuérpia »
in VERSOS DOS VERSOS- O que está por detrás dos versos – Associação José Afonso

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