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Manuel António Pina: “As palavras criam mundos…”

Posted by Manuela DLRamos em Novembro 18, 2013

Em data de comemoração do nascimento deste escritor, sugerimos a leitura desta interessante entrevista feita por Maria Luísa Perestrelo, Mariana Oliveira, Mariana Pinto e acessível (sob outro nome) no Correio do Porto  (o texto terá sido originalmente publicada no JN em junho de 2011)

«Existe uma grande preocupação com as letras… Por que razão?
Letras e palavras, não é? Por um lado, porque gosto de palavras e de letras, e por outro… Por que gosto de palavras? Desde pequenino sempre tive uma relação muito próxima com as palavras e descobri desde miúdo que as palavras têm um poder fantástico, maravilhoso… As palavras não servem só para dizermos coisas, para descrevermos coisas e os nossos sentimentos… As palavras criam mundos… As palavras não servem só para dizer “o gravador, o papel, a caneta, a Luísa, a Mariana, a Mariana”. Dá-me para eu inventar a Mariana três e a Mariana quatro, pôr o papel a escrever na caneta… Não só servem para dizer, descrever o Mundo, mas também para criar mundos… E descobri isso quando era muito miúdo, mais novo até que vocês. Eu fazia jogos e brinquedos com casca de pinheiros da mesma maneira que com as palavras inventava coisas. Sempre gostei muito das palavras… (…) E depois tive uma sorte enorme – que espero que vocês também tenham -, toda a minha vida, profissionalmente, acabei por trabalhar com palavras. Trabalho aqui há 40 anos, se calhar é a idade dos vossos pais. O meu trabalho é com palavras… Tive essa sorte. Trabalhar com uma coisa de que gostava e é natural que eu goste de fazer jogos de palavras

A fazer jogos de palavras encontram-se coisas fantásticas, há palavras que são amigas umas das outras, que se dão bem umas com as outras e gostam de estar juntas, há palavras que se detestam, outras que funcionam mal, que estão sempre a acotovelar-se… E isso é um Mundo fantástico, um mundo maravilhoso e ao mesmo tempo misterioso… Às vezes – e tenho quase a certeza de que já vos aconteceu -, as nossas palavras dizem coisas que nós não queremos dizer, como se começassem a falar sozinhas… Falam pelos seus próprios meios e isso é também uma aventura permanente. Não podemos dominá-las muito, ficam tristes… Como vocês, se começarem a controlar muito a vossa vida diária, ficam tristes, deprimidas… Com as palavras é igual, é preciso dar-lhes liberdade, mas também não se pode deixá-las a falar sozinhas ou começam a dizer o que não queremos, em vez de falarmos nós.  (…)

Ler-uma-maneira-deOs nossos professores costumam dizer-nos que para sermos escritores temos, primeiro, de ser bons leitores. Concorda?

Concordo… Ler é uma maneira de escrever e de nos escrevermos naquilo que lemos e de nos inscrevermos naquilo que lemos. Por exemplo, se forem ver o mesmo filme ou lerem o mesmo livro, há cenas que vêem de forma diferente, cenas que impressionam mais umas que outras… o que lemos, lemos connosco mesmo, com a nossa cultura, a nossa sensibilidade, a nossa experiência, com a nossa memória… É assim que lemos. As culturas, experiências, sensibilidades e memórias são diferentes de pessoa para pessoa. Tem a ver até com a nossa predisposição do momento…  Quando entrei para aqui (JN) , entrei para a secção de Grande Porto e fiz muitas vezes notícias de crianças atropeladas e de acidentes com crianças… E fazia-as normalmente, como as outras notícias. Mas a partir do momento em que nasceram as minhas filhas, essas notícias começaram a provocar-me uma angústia imensa. E antes não me acontecia aquilo… E ler é a mesma coisa… Quando lemos, estamos a ler-nos a nós mesmo no que lemos e a reescrevermo-nos no que lemos, a reescrever em nós. Ler é também uma forma de escrever. Por outro lado, escrever é também uma forma de ler…Quem escreve, como eu escrevo, estou a ler-me a mim, à minha sensibilidade, à forma como vejo as coisas que me rodeiam, as minhas memórias… Quando estou a escrever estou a ler-me e a ver o Mundo através da cor dos meus olhos. Entre ler e escrever há relações muito íntimas, de grande intimidade. A escrita também é ritmo e tem ritmos diferentes. Quando escrevemos, a escrita também tem um ritmo e intuitivamente aprendemos os ritmos, as palavras e as técnicas de outros… Sem estudar, naturalmente e isso acaba por nos influenciar. Os livros que li foram importantíssimos para a minha escrita, as maiores emoções – desastres, mortes, amores fatais – foi em livros que li que vivi.  (…)» (ler toda a entrevista e ver fotografias aqui)

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