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“Era uma vez”… Mensagem do Dia Internacional do Livro Infantil 2016

Posted by Manuela DLRamos em Abril 1, 2016

Todos os anos, no Dia Internacional  do Livro Infantil ,  o IBBY – International Board on Books for Young People convida um ilustrador para criar um cartaz e um autor para redigir uma mensagem dirigida a todas as crianças do mundo.
eraumavez Este ano,  coube  a vez aos brasileiros Ziraldo autor do cartaz, e  a Luciana Sandroni que escreveu a seguinte história:

«Era uma vez uma…
Princesa? Não. Era uma vez uma biblioteca. E também era uma vez a Luísa que foi à biblioteca pela primeira vez. A menina andava devagar, puxando uma mochila de rodinhas enoooorme. Ela olhava tudo muito admirada: Estantes e mais estantes recheadas de livros. Mesas, cadeiras, almofadas coloridas, desenhos e cartazes nas paredes.
Eu trouxe a foto – disse timidamente para a bibliotecária.
Ótimo, Luísa! Vou fazer sua carteira de sócia. Enquanto isso pode escolher o livro. Você pode escolher um livro para levar para casa, tá?
Só um?! – perguntou desapontada.
De repente, tocou o telefone e a bibliotecária deixou a menina com aquela difícil tarefa de escolher somente um livro diante daquela infinidade de estantes. Luísa puxou a mochila e procurou, procurou até que achou o seu favorito: Branca de Neve. Era uma edição de capa dura, com lindas ilustrações. Com o livro na mão, puxou a mochila novamente e, quando já saía, alguém bateu no seu ombro. A menina se virou e quase caiu para trás de susto: era nada mais, nada menos que o Gato de Botas com o livro dele nas mãos, quer dizer, nas patas!
Bom dia! Como vai sua tia? – brincou o gato fazendo uma reverência. – Luísa, você já não está careca de saber essas histórias de princesas? Por que não leva o meu livro, O Gato de Botas, que é bem mais divertido?
Luísa, admiradíssima, com os olhos arregalados, não sabia o que dizer.
O que houve? O gato comeu a sua língua? – brincou.
Você é o Gato de Botas de verdade?!
Eu mesmo! Em pelo e osso! Pois, então, me leve para a sua casa e você saberá tudo sobre a minha história e a do Marquês de Carabás.
A menina, de tão perplexa, só fez que sim com a cabeça. O Gato de Botas, num passe de mágica, voltou para o livro, e, quando a Luísa já saía, alguém bateu no seu ombro de novo. Era ela: “branca como a neve, corada como o sangue e de cabelos negros como ébano”. Já sabem quem é?
Branca de Neve!? – disse Luísa completamente abobada.
Luísa, me leva com você também. Essa edição – disse mostrando o próprio livro – é uma adaptação fiel do conto dos irmãos Grimm.
Quando a menina ia trocar de livro de novo, o Gato de Botas apareceu muito irritado:
Branca, a Luísa já se decidiu. Volte lá para os seus seis anões.
São sete! E ela não se decidiu coisa nenhuma! – se irritou a Branca ficando bem vermelha de raiva.
Os dois encararam a menina esperando uma resposta:
Eu não sei qual levar. Eu queria levar todos…
De repente, de repente, aconteceu a coisa mais extraordinária: os personagens todos foram saindo dos seus livros: a Cinderela, a Chapeuzinho Vermelho, a Bela Adormecida, a Rapunzel. Era um time de verdadeiras princesas:
Luísa, me leva para a sua casa! – suplicavam todas.
Eu só preciso de uma cama para dormir um pouquinho– disse a Bela bocejando.
Só cem anos, coisa pouca – ironizou o Gato.
Posso fazer a faxina na sua casa, mas à noite eu tenho uma festa no castelo do…
Príncipe! – gritaram todos.
Na minha cesta eu tenho bolo e vinho. Alguém quer? – ofereceu a Chapeuzinho.
Depois surgiram mais personagens: o Patinho Feio, a Pequena vendedora de Fósforos, o Soldadinho de Chumbo e a Bailarina:
Luísa, podemos ir com você? Somos personagens do Andersen – pediu o Patinho Feio, que nem era assim tão feio.
A sua casa é quentinha? – Perguntou a menina dos fósforos.
Ihhh, se tiver lareira é melhor a gente ficar por aqui… – comentou o Soldadinho com a Bailarina.
Só que, subitamente, surgiu um lobo bem peludo, enorme, com os dentes afiados, bem ali na frente de todos:
O Lobo Mau!!!!!
Lobo, por que essa boca tão grande? – perguntou a Chapeuzinho por força do hábito.
Eu protejo vocês! – disse o soldadinho muito corajoso.
Foi então, que o Lobo abriu a maior bocarra e… Comeu todo mundo? Não. Só bocejou de sono e depois disse muito tranquilo:
Calma, pessoal. Eu só queria dar uma ideia. A Luísa leva o livro da Branca de Neve e nós podemos ir dentro da mochila, que é bem grande.
Todos acharam a ideia muito boa:
Podemos, Luísa? – perguntou a Menina dos Fósforos que tremia de frio.
Tudo bem! – disse abrindo a mochila. Os personagens fizeram uma fila e foram entrando.
Primeiro as princesas! – reivindicou a Cinderela.
Na última hora, os personagens brasileiros também apareceram: o Saci, o Caipora, uma boneca de pano muito tagarela, um menino muito maluquinho, uma menina com uma bolsa amarela, outra com a foto da bisavó colada no corpo, um reizinho mandão. Todos entraram.
A mochila estava mais pesada que nunca. Como os personagens pesam! Luisa pegou o livro da Branca e a bibliotecária anotou tudo no fichário. Mais tarde, a menina entrou em casa na maior alegria, e a mãe gritou lá de dentro:
Chegou, filha?
Chegámos!»
Luciana Sandroni (Rio de Janeiro, 1962) Fonte

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«Explicações dos autores:
Luciana Sandroni explica que “a ideia do meu conto surgiu dessa ligação, dessa adoração das crianças pequenas pelos contos de fadas. Queria brincar com essa ideia – já feita pelo Monteiro Lobato e pelo Ricardo Azevedo – dos personagens saírem dos livros e conversarem com o leitor. Espero que as crianças gostem e façam muitos desenhos da Luísa chegando em casa com os personagens dentro da mochila”.

Segundo Ziraldo, “a inspiração – se houve… (eu confesso que não sei o que é inspiração) é tão óbvia que não dá para explicar. Tentemos. O quadro A Criação do Homem de Michelangelo mostra, no detalhe escolhido para o cartaz, Deus criando o homem com a ponta do seu dedo. O que eu quero dizer tá na cara: é que o livro tem – guardadas as devidas proporções – este mesmo poder. Ou seja: é o ‘acabamento’ da obra de Deus. É isto aí. Olha aí Ele passando o livro para o menino. Que vai virar homem”.» fonte

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