de Matilde Rosa Araújo e Maria Keil publicado pela Calendário de Letras : um livrinho a incluir na lista de prendas.

Excerto transcrito do artigo de Rita Pimenta, “Os livros de Matilde” (in Público- 26.07.2010) :
«Dezembro. Mês de frio, muito frio. Dias de chuva e de gelo. Florinda vinha da escola, atravessava o Jardim da Estrela. Jardim tão bonito, mesmo no Inverno!
O cachecol enrolado em volta do pescoço, tapando-lhe um poucochinho o nariz vermelho de frio. As botas de cabedal (castanho como o tronco das árvores) protegian os seus pés de menina. Menina de oito anos, que já sabia ler. E bem. Que alegria, quando começou a juntar as letras! Ler. Escutar as letras no papel do caderno, do livro, na lousa do quadro.
Conversar com elas.
Ler alto ou em silêncio.
Afagou a malinha da escola, que trazia presa ao ombro.
Ah! Mas que frio!
Mas não era para estranhar. Em Dezembro é sempre assim. E o Sol, nos dias em que brilha, é como se uma mão amiga nos afagasse.
Florinda gostava de atravessar o jardim. Às vezes vinha acompanhada por colegas da escola, outras vezes eles tomavam outro caminho.
- Psht… menina!
Olhou para o banco de jardim, de onde vinha o chamamento. Nele estava sentado um Pai Natal, vestido com um balandrau vermelho, a mão direita a segurar uma dezena de balões. Um verdadeiro arco-íris. Balões de todas as cores, agitados com o ventinho da tarde.
Ah! O Pai Natal! O Natal está à porta, embora ainda tenha escola…
Florinda, timidamente, aproximou-se do banco. Lembrou-se dos conselhos da avó, sempre preocupada:
- Florinda, nunca fales com desconhecidos. Ouviste?
Em silêncio, continuava a ouvir a avó. Não fales com desconhecidos…
- Queres comprar-me um balão, menina?
Florinda aproximou-se mais. Ficou parada, hesitante, sem saber o que dizer.
- Sabe, menina? – confidenciou o Pai Natal. – Estou cansado. Muito cansado. Sentei-me aqui porque já me doíam muito os pés. Não se quer sentar um bocadinho?
Florinda hesitou. Embora Pai Natal, sempre era um desconhecido. (…) » (aqui)